segunda-feira, julho 19, 2010

Meus Passos

Uma das melhores produções de uma banda evangélica na história brasileira, o álbum Depois da Guerra (2008), do Oficina G3, apresenta virtuose, boas letras, um ótimo vocalista estreante na banda (Mauro Henrique), e o bom e velho Juninho Afram nas guitarras, vocais e arranjos.

Essa música é mais do que uma ótima produção. A letra se baseia no texto de Paulo sobre a sinuca de bico em que estamos, todos os dias..

Por que os meus olhos só querem ver o que
não devo olhar, eu não quero ver?
Por que que os meus pés só querem ir
Onde não devo andar, eu não quero ir?
Não quero, mas isto é o que somos nós
Por que num momento eu amo e depois
Simplesmente não, eu não quero mais?
Por que que com uma das minhas mãos eu dou
E com a outra mão eu quero tirar?
Não quero, mas isto é o que somos nós
O bem que eu quero
Esse eu não faço
O mal que não quero
Persegue os meus passos
Por que é difícil manter o alvo e
Fácil se perder, querer desistir?
Por que que ao ver o mundo se afundar
Eu não estendo a mão, não quero ajudar?

quarta-feira, junho 09, 2010

Copa do Mundo 2010

A Copa é um acontecimento interessante. Talvez mais interessante pelas repercussões mundo afora do que pelo futebol apresentado pela maioria das seleções. Sociologicamente interessante, eu diria. Porque ressoa uma série de opiniões e situações que de outras formas não são levadas em conta. Vou me expressar melhor:
Quando a Copa do Mundo se aproxima, os comentários brasileiros na internet (blogs, sites esportivos, twitter, etc.) focam normalmente na lista dos convocados da nossa seleção, algo um pouco inútil mas dá "pano pra manga" nas discussões de bar. A sua opinião sobre o futebol (medíocre e feio) do Josué pode ser muito balizada, mas não faz a menor diferença na hora de o Dunga definir a lista dos 23 sortudos que vão disputar o torneio!!!
Outro assunto que toma conta dos coments é a situação econômica-política-sociológica do país sede. E claro que isso não acontece só em tempos de Copa. Quem não se lembra dos arquivos ppt. e dos emails furiosos sobre a tortura na China durante as últimas Olimpíadas ou sobre a violência e as favelas cariocas nos Jogos Panamericanos de 2007. Agora é a vez da AIDS, desemprego e apartheid na África do Sul. Eu apenas me surpreendo com a quantidade de gente que realmente acredita que, sem um evento esportivo dessa magnitude, o dinheiro que está sendo investido nos estádios iria beneficiar a população de alguma outra maneira!! Ranço de uma mentalidade assistencialista tipicamente brasileira.
Outra opinião que todo mundo ouve (e a maioria já expressou alguma vez) é: "Que absurdo o salário que esses jogadores ganham!". Bem, não deixa de ser verdade.. muitos jogadores que participarão da Copa recebem salários astronômicos, cifras que nenhum de nós, simples mortal, tem a menor noção da grandeza. Mas por que temos essa tendência a condená-los por isso? Seria por algum acaso um crime deles, ou uma falta, ser bem remunerado por algo em que você é único? Quantos mais no mundo tem a habilidade e a inteligência tática de um Kaká? Será que as leis de mercado estão tão equivocadas quando se define que o passe dele vale 65 milhões de euros, e que o salário que ele merece receber equivale a 9 milhões de euros por ano? É um dinheiro fora da minha realidade, mas se alguém está disposto a pagar, não seria porque o talento do Kaká produz muito mais do que isso? Podemos conversar sobre economia e criticar a bolha criada no futebol europeu e até onde é sustentável. Mas não podemos esquecer o mérito de um craque talentoso. E poderíamos estrapolar essa conversa para a situação de mais uns 30 ou 40 jogadores que disputarão a Copa da África do Sul.
Basicamente, o que defendo aqui é que as "discussões de bar" são exatamente isso: senso comum, manchado com uma série de pré-conceitos, repetidos e espalhados através da internet ou do boca-a-boca, normalmente guardando pouquíssima relação com a verdade. Além disso, são fomentadas cada vez mais por "comentaristas" pouco comprometidos com a realidade e a credibilidade das informações, e muito comprometidos com a polemização. Perde o leitor/telespectador que se fia nessas "opiniões".

sexta-feira, junho 04, 2010

4 anos de formado

Estou completando no próximo mês o aniversário de 4 anos da apresentação do meu TCC na UFSC. Aquele foi um tempo estranho, pelo qual passei com muita expectativa e alguma dificuldade, mas acima de tudo foi o coroamento de um tempo muito bom na graduação. Hoje, anos depois, acredito já ter o distanciamento suficiente para fazer uma análise do meu aproveitamento e dos encaminhamentos que a minha vida tomou a partir daquele mês de julho.
Inicialmente, hoje eu tenho bastante clareza dos limites do meu curso de graduação em Educação Física. Não apenas do meu limite como estudante, pensamentos do gênero: "eu deveria ter aproveitado mais" ou "se eu tivesse uma nova oportunidade teria feito diferente". É claro que teria feito diferente, ninguém seria tão burro de cometer os mesmos erros na mesma ordem nas mesmas circunstâncias. Mas não faço idéia se teria sido melhor ou pior, e isso não faz mesmo diferença. A idéia é avaliar as condições do curso em si, se atendeu ao que se propôs.
Quando entrei na faculdade, eu tinha uma idéia da profissão, uma idéia absolutamente limitada. Acreditava que ao me formar eu iria dar aulas em um escola. Não pensava muito na condição financeira que isso me daria, ou nas outras possibilidades. Nunca fui muito empreendedor e naquela época, aos 19 anos, não tinha a menor idéia das possibilidades que se abrem e dos desafios da minha profissão. E a faculdade nunca fez nenhuma questão de me mostrar essas situações.
Então, para elencar alguns limites do curso (e não falo só da Educação Física, talvez possamos generalizar bastante):
1. Os professores, em sua maioria, não tem o menor compromisso com a formação dos seus alunos. São funcionários públicos, muito preocupados com suas promoções e com a política do departamento. Raramente são comprometidos até mesmo com a sua área de estudo e atuação.
2. Os professores, em sua maioria, nunca atuaram profissionalmente fora da universidade. Pode não parecer tão importante em determinadas áreas / disciplinas, que são consideradas mais "científicas" ou "de base". Descobri que não é verdade. Professores que não conhecem a atuação profissional não valorizam o mérito, não sabem aplicar seu conteúdo e nem mesmo explicar sua importância e relevância. Estimulam alunos que produzem trabalhos desconectados da realidade e que esperam reconhecimento por algo inútil ou desqualificado.
3. A estrutura da universidade é lenta, paquidérmica. Não acompanha a necessidade da sociedade e, na verdade, grita para todos os lados que não liga a mínima. Demora anos modificando um currículo para, ao aplicá-lo, descobrir que já está totalmente desatualizado da realidade local da profissão.
4. Os alunos não fazem a menor idéia do que estão fazendo ali. E quando digo isto, reconheço que parte da culpa é dos alunos, mas grande parte é da própria universidade e dos professores, pelos 3 motivos que citei acima. Uma instituição que trabalha desvalorizando o mercado de trabalho, distanciada dos profissionais egressos, não pode mesmo contribuir de forma consistente para a transformação deste mercado.
Pode parecer que estou frustrado com a minha profissão, lamentando a formação que recebi. Pois é justamente o contrário. Hoje, após 4 anos de "carreira" (na verdade, posso considerar pelo menos 8 anos, tendo em vista os estágios), finalmente assumi o direcionamento das minhas ações, e tenho alguma clareza sobre a situação da minha profissão em Florianópolis e no Brasil. Finalmente consigo enxergar para além dos preconceitos a que os professores insistem em chamar de marxismo, socialismo, dialética ou qualquer outro rótulo.
Ser um profissional em qualquer área, especialmente quando se tem a expectativa de me tornar eu mesmo um professor, exige compreensão de mundo e comprometimento com um projeto. A universidade nunca falou sobre isso. Na verdade, propaga uma compreensão de mundo viciada, e se compromete (apenas da boca pra fora) com um projeto que os alunos não compreendem e com o qual não compactuam. Quando o estudante se forma, encontra um mundo muito diferente do preconizado pela academia, precisando fazer dinheiro, conhecer pessoas, empreender....  mas não faz a menor idéia de como fazer isso. A conclusão é triste, pois muitos saem de suas áreas de formação, outros correm para concursos públicos, outros tantos se mantém na academia, entre mestrados, doutorados, extensões, e se tornam professore universitários, perpetuando as limitações da formação inicial da área.
Mas eu tenho uma proposta: profissionais que encontraram o caminho, que, após "camelarem" bastante, construíram uma carreira, invistam nos outros profissionais, naqueles que estão chegando. Não se acomodem, não se esqueçam de quem, como aconteceu com vocês, está caindo de pára-quedas no meio da batalha, sem saber de nada, sem conhecer ninguém....

domingo, maio 09, 2010

O Milagre da Linguagem

"Ao ler estas palavras, você estará participando de uma das maravilhas do mundo natural. Pois você e eu pertencemos a uma espécie com uma característica notável: podemos dar forma a eventos nos cérebros de outras pessoas com extrema precisão...essa capacidade é a linguagem. Simplesmente por fazermos barulho com nossas bocas, podemos com confiança fazer com que surjam novas combinações de idéias nas mentes de outras pessoas. Essa capacidade surge tão naturalmente que tendemos a esquecer quão milagrosa ela é."
Pinker, 1997.

quarta-feira, maio 05, 2010

Conto

Kevin buscava compreender tudo que se passava na cabeça de Jana. Não era fácil. Garotas têm o péssimo vício de não se parecerem em nada conosco. Kevin ainda não sabia disso. Jana era bonita, simpática, culta o suficiente para uma boa conversa, agradável. E era sua namorada havia cerca de um ano. Kevin não era tolo, mas dizer isso de um garoto, 20 anos, é quase como não dizer coisa nenhuma.
Ele tentou entender o motivo das últimas brigas. Na verdade, ele tentou ler nas entrelinhas. Os motivos visíveis eram as bobeiras de sempre: as roupas dele, os horários em que ele chegava (atrasado demais, cedo demais), o jeito que ele olhou para a Vitória, e coisas desse gênero. Tudo o que ele queria era não brigar, não se estressar. Mas quem disse que ele poderia querer alguma coisa.. nem ele sabia!
Então um dia ele tentou conversar sobre isso. Quem deu essa brilhante idéia? Conversar foi a mesma coisa que pedir pra piorar. Mas quem conversou alguma coisa? Aquilo poderia ser chamado de conversa, por algum acaso? Sair de um diálogo sem nem saber o que pensar ajudou em algo?
Mas poderia ter sido pior: ela poderia ter acabado tudo, ele poderia ter dito algo irreversível. Não aconteceu, ou pelo menos ele não lembra de nada assim. Se aconteceu com certeza será lembrado na próxima discussão, não há dúvida.
Por enquanto, ele até fica satisfeito. Jana continua sendo sua namorada, não precisa mudar nenhum perfil, explicar nada para ninguém, sair a procura de outra. Até quando? Ele prefere não pensar muito sobre isso, acha que a simples menção acabaria estragando tudo o que ainda existe. E ele nem imagina a possibilidade de voltar a conversar isso com ela.
Daqui a pouco ele tem que sair, ela estará esperando pra irem a uma festa. Ele não quer ir, não conhece ninguém lá, odeia pagode, e churrascos feitos por universitários normalmente tem uma aparência grotesca. Mas ela pediu... então, por que não ir?

quarta-feira, abril 14, 2010

AVENTURA - Parte 3

Agora, gostaria de escrever sobre um aspecto que tem tudo a ver com a minha área de atuação: o Esporte. Não o vejo como a solução dos problemas dos homens, muito menos como uma salvação para a humanidade, como gostam de vender as emissoras de televisão e alguns profissionais da área. Mas a associação entre a frustração / ansiedade masculina e o esporte (assistência e prática) podem lançar uma luz sobre a mente masculina e a forma como temos lidado com nossas angústias. Essas idéias não são originais minhas, obviamente, mas me identifico muito com elas, porque explicam a fascinação que os esportes despertam nos seres humanos.
Primeiramente, o esporte tem um papel importante para aqueles que o praticam. É mais do que uma profissão, é mais do que um modo de ganhar dinheiro: é um forma de despertar e libertar algo que a civilização exige que fique guardado - a agressividade. Dentro do campo, do ginásio ou da piscina, há um espaço socialmente aceito para a transgressão dessa passividade. Ali, durante alguns minutos, o homem poderá (e será cobrado por isso) dar o máximo da sua capacidade física e emocional em favor de seus companheiros e de uma bandeira (seja do seu time ou do seu país). Há um comprometimento visceral entre esses homens, mesmo que sejam adversários. O esporte é, por assim dizer, a guerra em uma forma socialmente aceita. Há um código de conduta bem definido, algo que se perdeu nas guerras ocidentais. Para se ter um exemplo disso, podemos lembrar dos All Blacks ou dos Ice Blacks, as seleções da Nova Zelândia no rugby e no hockey, respectivamente. Ambos os times tem a tradição de desafiar as seleções adversárias com o Haka, uma espécie de dança de guerra tradicional da cultura maori. É tão intimidante quanto deve ser enfrentar um exército.
Do lado de fora do campo de jogo, seja pela televisão / rádio ou na arquibancada, temos uma massa que assiste e torce por uma equipe, ou seja, que se identifica com determinada bandeira e enxerga os atletas como guerreiros. Entoa cantos de guerra, hasteia bandeiras, sofre, chora, grita, e desenvolve uma irmandade, mesmo que momentânea com quem está ao seu lado, envolvido com o mesmo time. Vemos isso a cada 4 anos, na Copa do Mundo de Futebol, mas também em cada ginásio deste país, em competições de vôlei, ou nos campos dos esportes profissionais ou amadores ao redor do mundo todo. No Brasil, época de Copa do Mundo é um período em que mais nada é tão importante: trabalhos, estudos, política, tudo fica para trás, a fim de acompanharmos nossos representantes lutando do outro lado do mundo, por um troféu que nunca tocaremos.
Definitivamente o esporte encontra eco no vazio que o homem sente quando se depara com a própria rotina e suas próprias frustrações. É um mecanismo de compensação aceitável para tudo aquilo que o homem tem necessidade: realização, poder, desafios, aventura.
Infelizmente, ainda temos a enorme dificuldade para controlar os instintos, mesmo no esporte. A violência nos estádios brasileiros, a história dos hooligans, e tantos outros casos escabrosos, demonstram que o esporte não é a solução do problema do homem. A solução nós já sabemos qual é: Jesus Cristo. Mas tanto o esporte quanto outras formas de aventura, são necessários para que o homem vença sua própria passividade e torne-se mais completo, sinta-se homem de verdade.